A pergunta “Você percebe a cidade de Caxias do Sul?” pode parecer estranha. Mas vamos lá:
A imagem de uma cidade, nada mais é que a junção e sobreposição de várias imagens individuais. A pergunta é: qual é a sua imagem da cidade?
Você percebe a cidade e a paisagem urbana?
Você entende a importância de conservar o patrimônio histórico?
Como você imagina a cidade no futuro?
Provocação
A proposta das imagens é de provocar uma reflexão de percepção da imagem da cidade de Caxias do Sul. Se um prédio ou espaço público desaparecer ou ser substituído, você vai perceber?
Na foto abaixo, na Praça Dante Alighieri – Centro de Caxias do Sul/RS, tem 5 prédios a mais na paisagem urbana. Você consegue descobrir quais?
Quando mudamos para uma cidade nova, o processo de descoberta do espaço começa do zero. Novas pessoas, culturas, trajetos, rotinas e nova paisagem urbana. Quanto tempo levamos pra perceber a cidade?
Kevin Lynch (1918-1984), Urbanista e Escritor, apresentou no seu livro A Imagem da Cidade que existem elementos físicos ou não, que guiam e são essa descoberta. Os objetos físicos que estruturam a cidade são: Vias, Limites, Bairros, Pontos Nodais, e Marcos.
O Flâneur
E essa descoberta da cidade, está diretamente relacionada pela forma como nos locomovemos pela cidade. Quando caminhamos, temos uma percepção mais completa – conseguimos ter noção de profundidade, perspectiva, materiais, percebemos as pessoas, o clima, temos sensações, etc.
“A avaliação lateral também acontece com o flâneur saudável (caminhante observador), que pratica algo parecido com a Reabilitação Vestibular ao explorar a cidade. Ele absorve novos “dados” nas laterais da consciência visual; avaliação lateral provoca uma mensuração dimensional, e o flâneur saudável, como um paciente que se recupera de um derrame, pode então ver mais vividamente objetos que estão no limiar da consciência.” Construir e Habitar – Ética para uma cidade aberta, Richard Sennett, Pag. 211.
Largo dos Pracinhas da FEB – O que falta na foto?
Praça Dante Alighieri – Percebe a falta que faz? Falta um Marco, um ponto de referência
Praça Dante Alighieri – Percebe a falta que faz? Falta um Marco, um ponto de referência
O nível de percepção baixa conforme aumenta a velocidade de locomoção.
“A visão periférica é natural na maioria dos animais. Nos seres humanos, o cone de visão é de 60 graus, ao passo que a profundidade de campo é de alcance menor, de modo que estamos sempre recebendo mais informação do que está em foco. Além disso, o animal humano tem dificuldade de distinguir de maneira atenta e individualizada mais de sete objetos simultaneamente. Em ritmo de caminhada, o “holofote” jamesiano do cérebro tende, portanto, a reduzir a avaliação lateral a três ou quatro objetos. Em contraste, viajar num carro a 80 quilômetros por hora reduz a consciência a um único objeto significativo. Em ritmo de caminhada, os objetos focados são “arredondados”, no sentido de que podemos lidar com eles, avaliar seus contornos e contextos, ao passo que, em alta velocidade, o único objeto focado parece neurologicamente como “chato” – uma imagem passageira, sem profundidade nem contexto.” Construir e Habitar – Ética para uma cidade aberta, Richard Sennett, Pag. 212.
A diferença entre habitar e passar
“Nesse contexto, caminhar lentamente gera uma consciência lateral mas profunda que se mover com rapidez. A avaliação lateral é um dos critérios para distinguir lugar – um local onde habitamos – de espaço – um local por onde passamos. Ela estabelece justificativa cognitiva básica para privilegiar os ciclistas em detrimento dos motoristas: o ciclista sabe mais sobre a cidade, neurologicamente que o motorista.”Construir e Habitar – Ética para uma cidade aberta, Richard Sennett, Pag. 212.
Perceber, sentir, entender e viver
Se você ainda não conseguiu descobrir quais prédios estavam a mais na paisagem urbana ou não reconheceu o local das fotos, abaixo o antes e depois:
Antes e Depois. Praça Dante Alighieri. Antes e Depois. Praça Dante Alighieri.
Antes e Depois. Largo dos pracinhas da FEB e Igreja de São Pelegrino.
Antes e Depois. Praça Dante Alighieri e paisagem urbana.
E agora, você caminha o suficiente pela cidade? Percebe a cidade e a paisagem urbana? Como você entende a importância de conservar o patrimônio histórico? Como você imagina a cidade no futuro?
SENNETT, Richard. Construir e habitar: ética para uma cidade aberta/Richar Sennett; tradução de Clóvis Marques. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2018. ISBN 978-85-01-08392-0.
LYNCH, Kevin. The image of the city. Cambridge: The M.I.T. Press, 1960.
arquitetura · Estética Urbana · Intervenção · Urbanismo
Arquiteto e urbanista · Paisagista · Fundador da ORGNC
À frente da Orgânico Arquitetura desde 2018. A natureza sempre esteve presente na sua rotina, e o interesse pela biofilia o levou a estudar por que ambientes com vegetação fazem tão bem às pessoas. Hoje coordena uma equipe multidisciplinar de paisagistas, arquitetos e engenheira agrônoma, em projetos que vão de arquitetura, interiores e jardins residenciais ao parque urbano.
Registro no CAU — nº A159344-7
Arquitetura e Urbanismo — URI, Santiago/RS
Pós-graduação em Paisagismo e Iluminação — Faculdade Unyleya
Pós-graduação em Projeto de Paisagismo — Faculdade Metropolitana